
Vencedor do Grammy Latino no ano de 2020, Cláudio Jorge lança “Kota, a cor da pele”, álbum autoral dedicado ao tema da negritude.
O Show de lançamento aconteceu no último dia 10/04, no Centro da Música Carioca Artur da Távola, concomitante a veiculação do álbum nas plataformas digitais.
O violonista, compositor e cantor Cláudio Jorge lançou, no último dia 10 de abril seu décimo trabalho de carreira, o álbum “Kota, a cor da pele” (Mills Records). Este é o décimo trabalho de carreira do músico, que foi vencedor do Grammy Latino em 2020, com o disco “Samba Jazz, de Raiz”.
O álbum “Kota, a cor da pele” é inteiramente dedicado à temática da negritude, abordando assuntos como ancestralidade, religiosidade, musicalidade, racismo, preconceito, ecologia e amor. O trabalho é uma reflexão sobre a cultura negra, distribuída em treze crônicas musicais - incluindo oito músicas inéditas - que compõem um roteiro temático.
São treze canções, sendo oito inéditas, em parcerias com Joyce Moreno, Nei Lopes, Joel Silva, Ronaldo Barcellos, Chico César, Wilson das Neves, Elton Medeiros e Arlindo Cruz. Entre as músicas que não são inéditas, nenhuma delas havia sido gravada antes por Cláudio Jorge – como “Tia Eulália na xiba”, parceria com Nei Lopes que se tornou clássico das rodas de samba.
“Kota é como são chamados os mais velhos em Angola, os que transmitem conhecimentos, e uso como um trocadilho com as cotas raciais no Brasil. ‘A cor da pele’ é o que define o destino de muitos brasileiros, quanto mais escura, maiores as barreiras a serem vencidas na luta por cidadania. O álbum é um manifesto pessoal, é a celebração do meu processo de consciência da minha negritude, uma orgulhosa comemoração de todas as muitas qualidades do povo negro, da ancestralidade até os nossos dias, tudo com muita palma de mão e tambor”, conta Cláudio Jorge.
Sobre Cláudio Jorge
O compositor, violonista, cantor, arranjador e produtor musical Cláudio Jorge é um dos músicos mais respeitados do Brasil. Criador de um estilo próprio de tocar violão, se tornou referência no instrumento, com o qual acompanhou - ao longo de mais de 50 anos de carreira - nomes como Martinho da Vila, João Nogueira, Sivuca e Ismael Silva.
Foi integrante dos grupos Choro Elétrico, Banda Banzai, Batacotô e da ala de compositores da Vila Isabel. Como compositor, coleciona inúmeros parceiros de peso, incluindo Cartola, Elton Medeiros, Paulo César Pinheiro, Ivan Lins e Hermínio Bello de Carvalho. Teve músicas gravadas por artistas como Zeca Pagodinho, Roberto Ribeiro, Jorge Aragão, Mart'nália, Ana Costa e Emílio Santiago.
Como produtor, trabalhou em discos de Luiz Carlos da Vila ("A luz do vencedor" e “Benza, Deus”), Roberto Ribeiro (“Roberto Ribeiro”), Nei Lopes (“Sincopando o breque”) e de seu filho Gabriel Versiani ("Ainda Sambo"), entre outros projetos.
A discografia de Cláudio Jorge inclui o LP "Cláudio Jorge" (1980); o compacto "Uma casa brasileira" (1981); o CD "Coisa de Chefe" (2001), indicado ao Grammy Latino; "Matrizes" (2006), projeto com Luiz Carlos da Vila; "Amigo de Fé" (2006); "O violão e o samba" (2009), com Dorina e Carlinhos 7 Cordas; "Samba Jazz, de Raiz" (2019); "Ismael Silva: uma escola de samba", com Augusto Martins (2015); “Farinha do mesmo saco” (2023), com Guinga; e “Coisas guardadas pra te dar – Luiz Carlos da Vila inédito” (2024), também com Augusto Martins.
• Faixa a faixa
01 - Acorda, meu amor!
Essa canção fez parte do espetáculo teatral “Oh! que delícia de negras”, com texto de Nei Lopes, músicas de Cláudio Jorge e direção do ator Haroldo de Oliveira. Encenada no Teatro Rival no ano de 1987 e 1989. Uma abordagem dos dramas da negritude em linguagem de comédia musicada.
02 – Congueiros e ogãs.
Ijexá inicialmente composto em homenagem ao percussionista Peninha, do grupo Barão Vermelho - com quem Cláudio Jorge trabalhou na banda de Sivuca – a música teve a letra atualizada para também homenagear o percussionista e babalaô Zero, falecido em 2025. É uma homenagem a um cargo importantíssimo do candomblé: o ogã. “O tambor ritual provoca movimentos, sentimentos e estabelece um contato do Orum (céu, plano espiritual) com o Ayê (terra, plano físico)”, explica Cláudio.
03 – Do que é capaz o tambor e o agogô
Um complemento da homenagem anterior, reforçando o poder e a importância da percussão na cultura e religiosidade negra brasileira. É uma das parcerias de Cláudio Jorge com Wilson das Neves que integrava uma série de composições de Wilson dedicada aos orixás. A música foi gravada inicialmente por Cláudio Jorge e Pretinho da Serrinha no álbum “Senzala e Favela”, dedicado à de Das Neves.
04 – Histórias e lendas
A primeira gravação deste maculelê foi feita pela cantora Zezé Mota, para a novela “Pacto de Sangue” (1989), da TV Globo. Para regravá-la, Cláudio Jorge atualizou algumas partes da letra. É um depoimento pessoal sobre o processo de consciência da negritude, acontecido ainda na juventude. É uma canção dedicada à ancestralidade e às perspectivas que ela oferece para o presente e o futuro.
05 – Recado do mar
Parceria com Nei Lopes dedicada a Iemanjá, foi gravada com a participação do violonista Carlinhos 7 Cordas. “O convite se deve à nossa longa amizade, iniciada nas rodas de samba ‘Corre pra sombra’, na calçada da Rua Torres Homem, em Vila Isabel, em frente à vila em que morava Nei Lopes. Nei é um padrinho de Carlinhos. Meu violão e o do Carlinhos juntos têm uma identidade já registrada em várias gravações”.
06 – Onde o samba nasceu
Samba composto à distância com Humberto Araújo, autor da melodia e que mora em Portugal, durante a pandemia. É uma reflexão poética sobre o eterno debate acerca da origem do samba, na qual Cláudio aproveita para abordar na letra o papel do colonizador no tráfico de escravizados africanos para o Brasil.
07 – Lágrimas de Deus
Dentre outras parcerias de Cláudio Jorge com Elton Medeiros, esta é a única que ainda estava inédita. Cláudio colocou a letra na melodia de Elton inspirado nas cenas da invasão do Iraque pelos EUA. “A transmissão começava num amanhecer onde se ouvia o canto dos passarinhos. Aproveitei uma frase solta dita por minha esposa Renata, durante um jantar feito pelo Elton em nossa casa: ‘uma nuvem no céu apareceu’”.
08 – Muda
Parceria com Chico César, é um complemento à canção anterior, uma resposta à pergunta final da letra: “O que fazer para mudar?”. Cláudio conheceu o parceiro em uma gravação de um álbum de Martinho da Vila, no qual Chico César participou de uma canção em voz e violão, com acompanhamento de Cláudio. “Na época, fiz um convite para ele participar deste meu álbum cantando uma música. Ele topou e disse que poderia cantar uma canção nossa. Fomos trocando figurinha e nasceu MUDA, que imediatamente pensamos em ser uma canção de apoio às vítimas das enchentes do Rio Grande do Sul. A ideia cresceu, nos aliamos a CULTNE TV e gravamos juntos um clipe, com a participação do cantor gaúcho Gelson Oliveira”.
09 – Bate chibata
Canção até então inédita, em parceria com Nei Lopes e que fez parte da trilha sonora da peça “Oh! Que delícia de negras”. É uma canção de amor, usando termos ligados aos castigos impostos aos escravizados no Brasil.
10 – Um novo amor
Segunda parceria de Cláudio com Arlindo Cruz, também estava inédita. Uma canção de amor, letrada por Arlindo e com um refrão bem característico do seu estilo. “Foi uma amizade antiga cultivada em festas e estúdios. Arlindo chegou a participar com seu banjo do meu primeiro CD solo, ‘Coisa de Chefe’”.
11 – O tom do Vinícius
Em um momento de indignação com os casos de racismo sofrido pelo jogador Vinícius Júnior, Cláudio Jorge escreveu um poema solidário a ele e publicou no Instagram. A compositora, e sua amiga, Joyce Moreno leu e comentou: “fico imaginando como ficará com melodia”. Cláudio a convidou a musicar o poema e assim nasceu o samba exaltação ao craque brasileiro.
12 – Para Wonder e McCartney
Parceria com Ronaldo Barcelos inspirada na parceria “Ebony and Evory”, de Paul McCartney e Steve Wonder: um branco inglês com um afrodescendente americano. “Convidei Ronaldo para compor a segunda parte e ele foi muito feliz. Acredito que mudanças em relação ao racismo no Brasil passam por uma aliança entre negros e brancos não racistas, simpatizantes da causa. ‘Pretos e brancos no verde amarelo se harmonizando’, como diz a letra”.
13 – Tia Eulália na xiba
Primeira parceria de Cláudio Jorge e Nei Lopes, feita em homenagem à lendária Tia Eulália, reconhecida como a matriarca e fundadora do G.R.E.S. Império Serrano. “É a nossa parceria mais gravada, mas eu mesmo nunca tinha gravado essa canção, a não ser numa participação em um documentário. Ela é sempre tocada nas rodas de samba do Rio de Janeiro a décadas. É também a nossa parceria mais gravada, tendo sido lançada por Roberto Ribeiro, Fabíola Sendino, Nei Lopes, Elimar Santos, Gallotti, Mariana Baltar, Sururu na Roda e Dose Certa”.